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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Os filhos sem Nação


 Creio que existem muitas pessoas na mesma situação que eu, filhos de emigrantes que saíram do seu país de nascença desde pequenos por decisão dos pais, ou como nos costumam chamar "A segunda geração".

 Saí do meu país natal desde os meus sete anos, tenho umas vagas memórias dos tempos em que brincava na rua com as meninas da vizinhança e íamos para o lago apanhar girinos ou estendermos na esplanada nas noites quentes de Verão para contemplar a lua cheia.
 Lembro-me como se fosse ontem a reacção da minha mãe quando nos viu a sair do aeroporto, ela a correr para nós cheia de felicidade, mas também me lembro de todos os obstáculos que enfrentei desde então.

 Cheguei a Portugal a meio do Verão e nesse Verão de 1997 aprendi as primeiras palavras em português com a minha mãe. Essas palavras não iam além de nomes de frutos, apresentação ou para cumprimentar alguém. No começar do ano lectivo entrei para o primeiro ano juntamente com a minha irmã. Apesar da curiosidade da professora e de muitos alunos por uma cultura diferente, gozos e ouvir nomes menos apropriados fazia parte da rotina. Na primeira escola onde estive, havia inclusive alguns alunos que atiravam-nos pedras. Por um mês, todos os dias, chegado a casa perguntava à minha mãe a chorar porque é que ela tinha escolhido sair da China e vir para um país tão longínquo.

 Não percebia o que tinha de fazer nas aulas, não percebia o que me ensinavam, não percebia as perguntas muito menos como responder, não sabia dizer o nome da professora, não percebia os trabalhos que tinha de fazer em casa, quando me avisavam de que a professora iria faltar no dia seguinte ou que a escola iria estar fechada aparecia na mesma fizesse chuva ou fizesse sol.
Passado dois anos a língua deixou de ser um obstáculo mas as dificuldades não ficariam por aqui. Na escola e na rua continuava e ainda é constante ouvir "Olha a chinesa" ou "Konichiwa", que por acaso nem sequer é chinês. Mas acima de tudo sentia-me incompreendida, a estranheza dos outros perante a cultura e os costumes chineses.

 Dividida entre duas culturas, costumes, tradições e línguas completamente diferentes acostumei-me a partes de cada uma. Em Portugal as pessoas vêem-me de maneira diferente porque eu sou chinesa, não tenho como esconder, não que eu tenha vergonha, mas é impossível passar por despercebido os meus traços orientais. Quando vou de férias para China, as pessoas olham-me de lado porque visto-me de maneira diferente deles e assim que abro a boca percebem que voltei de um país estrangeiro devido à maneira como falo, não que tenha sotaque mas falo mais devagar e não uso o mesmo tipo de linguagem.
 Não há um país onde as pessoas não me olhem de lado, não há um país onde fale com as pessoas e não me façam perguntas sobre outro país, não há um país onde as pessoas compreendam a minha maneira de pensar e os meus princípios e o mais impensável é que nunca irá haver...

 Crescer no seio de duas culturas origina maneiras de pensar que se encontram no meridiano das duas, podemos concordar com algumas coisas mas nunca completamente, para nós, os filhos sem nação, há sempre um senão. E o melhor que esse senão nos ensinou é que tudo tem prós e contras ou como o velho provérbio chinês costuma dizer "todas as moedas tem dois lados". Fora todos os aspectos negativos também aconteceram coisas fantásticas.  Actualmente domino várias línguas sem dificuldade, compreendo várias culturas o que me permite expandir o horizonte tanto a nível social como profissional e acima de tudo um profundo entendimento sobre ultrapassar as diferenças.

 Nunca ninguém disse que começar de zero num novo país seria fácil, no fim, tudo o que importa é saber contornar os obstáculos.

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